Quinta-feira, Março 29, 2007

TRADIÇÃO VS. MODERNIDADE

 

Este post surge no seguimento de algumas conversas que tenho com o meu pai. Ele pertence a uma geração onde a actividade da arquitectura era exercida por quem não tinha a formação que tem hoje um arquitecto (ou deveria ter) e daí surgem alguns pontos de vista diferentes. Pelo facto de esta disciplina estar intrinsecamente ligada à engenharia e de estas actividades não  terem trabalhado autonomamente na concepção de um projecto, tivémos como resultado algumas lacunas na paisagem e no desenho das nossas cidades. Isto porque as duas actividades trabalham assuntos e conceitos diferentes, não descurando o facto que requerem o trabalho uma da outra para chegarem a uma solução final.

Um dos assuntos que não só com o meu pai mas também com gerações mais novas venho discutindo regularmente é o novo conceito de casa (vulgo moradia). Ora, para uma pessoa de carácter mais tradicionalista e conservador, a ideia da "casa dos sonhos" ainda tem a imagem formal pré-concebida da chamada "Casa Portuguesa" que apresentou Raul Lino no príncipio do séc. XX. Contudo, esta concepção formal já em  nada tem a ver com a linguagem moderna arquitectónica actual e como tal, chegar a um resultado formal de "casa", quando projectada  para uma pessoa que não aceita os traços da modernidade é sem dúvida, uma grande batalha pessoal para um arquitecto.

Acredito que a solução nestes casos passe por encontrar uma mediação entre a imagem tradicional de casa e os materiais, os elementos compositivos que fazem parte da linguagem arquitectónica actual...E estes são alguns exemplos felizes, a meu ver, que podem ser o caminho para a solução deste problema.

HERZOG AND THE MEURON- Rudin House in Leymen, France  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

MAYA LIN- Langston hughes library - Knoxville, Tenessee

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

JUMEAU/PAILLARD- Casa Icono- estudo

Escrito por Bárbara em 19:36:37 | Link permanente | Comments (1) |

Terça-feira, Março 20, 2007

Ainda o Método...

A um arquitecto é exigido o conhecimento profundo acerca da perícia técnica, da estética, da legislação, etc.. Todos aspectos que valorizo, mas principalmente, a um arquitecto, é desejável a Reflexão: acerca das cidades, das pessoas, da qualidade de vida que se abre nos ambientes construídos ou naturais...

Em Fevereiro terminámos mais uma etapa no percurso da nossa formação enquanto arquitectas: as aulas de “Métodos e Técnicas de Investigação” uma cadeira do nosso mestrado. Nessas aulas estudámos e discutimos variados métodos que ao longo dos tempos foram sendo desenvolvidos, como o Método Científico ou o Método Fenomenológico.

O que ficou mais uma vez assente foi: Todo o trabalho de Arquitectura precisa de um Método...até aqui tudo bem, mas qual? Como definir o método correcto? Existe um método correcto?

Numa perspectiva de experiência pessoal, o método pode ser o que nos é instituído num contexto académico. Os ensinamentos dos nossos mestres são sem dúvida alguma válidos, mas devem ser igualmente questionáveis. É por vezes necessário um descolamento que nos abre lugar ao nosso próprio caminho. Defendo portanto um método aberto, sem guiões restrictos e com a organização que nos é relatada pelo percurso do trabalho, até porque cada caso é um caso e, igualmente, cada pessoa é única.  

A reflexão é impreterível, ela é, na minha opinião, o Método. É dela que nascem os primeiros esboços de um trabalho e é na sua prolongação que o mesmo trabalho cresce. O método, academismos à parte, é a capacidade de questionar o que é desconhecido com a mesma avidez com que se questiona o que nos é conhecido, numa icessável procura da solução mais acertada...reflitam, procurem!

Esta é uma unicidade que nos assiste enquanto seres pensantes e deve ser difundida pelos colegas, por isso discutam as vossas dúvidas e partilhem as vossas reflexões.

Um método de trabalho é uma ferramenta valiosa; o querer prosseguir “o método” através de uma reflexão contínua é um dom guardado para os que conseguem observar a matéria do vento. 
Escrito por VANDA em 21:31:56 | Link permanente | Comments (2) |

Segunda-feira, Março 19, 2007

LIVROS I- "Atmosferas"

 Uma parte do nosso blog será certamente dedicada à divulgação de livros que nos pareçam dignos de algum destaque. Este descobri-o outro dia quando passeava pela Fnac.

A seguir ao "Pensar a Arquitectura" chega-nos este pequeno livrinho, do grande arquitecto Peter Zumthor. Fala-nos de "Atmosferas". Em última análise, creio que a construção de um ambiente é o objectivo último de todo o processo conceptual de uma obra arquitectónica. Estou-me a referir quer ao  "ambiente" que pretendemos no seu interior, quer ao "ambiente" que pretendemos para o local onde ela se vai erguer. É um livro que nos fala dos instrumentos necessários para a construção dessa "atmosfera".São eles  a côr, a luz, os materiais, as texturas, as formas ...

É um livro... bonito. Não é propriamente um livro técnico, é destinado a qualquer pessoa. É pequeno, tem um design actual e apelativo, lê-se e vê-se em pouco menos de uma horinha na Fnac. Quando vos faltar inspiração, vão à fnac e leiam-no!

Deixo aqui algumas imagens das famosas termas deste arquitecto, na Suiça que são mais perfeita recriação de um ambiente. Não deixa margem para dúvidas. Quando for velhinha e rica, vou com a Vanda e os nossos respectivos velhos para a Suiça curar a artrite.Cool

Escrito por Bárbara em 22:21:17 | Link permanente | Comments (0) |

Quinta-feira, Março 15, 2007

Bem Vindos!

É certo que existe muita informação na blogosfera sobre diversos temas e a Arquitectura não poderia ser excepção...

Somos duas jovens arquitectas, que ingressámos há cerca de um ano nesta profissão cujo objecto é a Arquitectura...do Homem e para o Homem.

Temos por isso várias opiniões e alguns dilemas que tivémos a vontade de partilhar com pessoas que, como nós, acreditam no valioso papel da Arquitectura na construção do nosso mundo....Porque o "nosso mundo" são as nossas viagens, as nossas cidades, as nossas casas e  todos os lugares que habitamos. Onde vivemos.

Prestámos um pequeno tributo ao "Tratado de Arquitectura" de  Vitruvius no 1º post do nosso blog, visto ter sido um valioso contributo para  a afirmação da nossa actividade já desde o séc. I a.C. Quando tive de estudar esta obra no 1º ano da faculdade ia desistindo do curso mas com o passar do tempo e a maturidade adquirida inerente ao estudo desta Arte, conseguimos hoje, interpretá-lo de outra forma.Wink

Até breve!

Bárbara.

Escrito por ArquitectAS em 02:47:36 | Link permanente | Comments (4) |

Quarta-feira, Março 14, 2007

Os dez livros de Arquitectura

 

Vitruvius

 

Marco Vitruvius Pollio, viveu em Roma no séc I a.c.

Dividiu a sua vida entre a engenharia e a arquitectura, mas foi neste último ofício que firmou a sua arte, deixando-nos um testemunho único e intemporal: o seu tratado constituído por dez Livros, De Architectura, abordam diferentes componentes desta actividade.

A actividade e reflexão de Vitruvius está na base da teoria classicista, onde o saber teórico estava em directa ligação com a mestria técnica, acreditando-se que o poder da experiência empírica e o da teoria não fariam sentido a não ser pela via da sua comunhão.

Com a queda do Império Romano (séc V) , destronam-se igualmente as artes clássicas e os textos de Vitruvio terão sido parcialmente esquecidos ou até mesmo renunciados durante todo este período. O movimento Gótico não comunhava das referências vitruvianas; Vitruvius descolava-se das abóbadas e arcos quebrados inerentes à linguagem conceptual Gótica. Foi um período onde se retirou alguma importância à base teórico- reflexiva inerente ao exercício do estudo dos espaços; os arquitectos eram então artesãos, sem formação académica, que absorviam os ensinamentos dos mais experientes, realistas e religiosos anciões da arquitectura da altura.

De Architectura voltou a ser comemorado, comprovando a sua longevidade e propósito, após o Período Mediaval, por volta do séc. XV, com o Renascimento das artes clássicas.

O tratado foi a base desta renascença e sobreviveu até aos dias de hoje, mantendo-se, em traços gerais, muito actual.

 

utilitas, venustas e firmitas (utilidade, beleza e solidez)

 

Inicia este Tratado no livro I versando sobre a formação de um arquitecto. Ela deve conjugar o que eram, na altura, vistas como as ciências e artes “verdadeiras”: a medicina, a música, a astronomia, a história, a geometria e a matemática. O arquitecto deve formar-se num ser completo, aberto ao estudo, ao mundo, abrangendo assim as diversas áreas do conhecimento humano.

 

"A arquitetura é uma ciência, surgindo de muitas outras, e adornada com muitos e variados ensinamentos: pela ajuda dos quais um julgamento é formado daqueles trabalhos que são o resultado das outras artes."

Este livro ainda trata da análise do trabalho artístico, na perspectiva do seu percurso de trabalho, desde a idealização inicial - a sua dimensão teórica - até à obra propriamente dita.

O livro II faz  uma referência histórica da necessidade da construção de um abrigo desde a pré-história e  à dimensão tectónica dos edifícios, dos materiais neles utilizados. Neste aspecto desenvolveu uma lista tendo como base a existência dos materiais constituintes da natureza, relacionando-os com conhecimento científico da época  a nível das técnicas construtivas.

No livro III e IV, Vitruvius faz referência ao arquitecto grego Hermógenes (séc. II a.c.), reiterando a importância da simetria e da proporção, tanto na arquitectura como no ser humano. Faz a caracterização das Ordens Dórica, Jónica, Coríntia: a sua composição, proporção e ornamentação. O módulo e a métrica inerentes à composição do espaço interior dos templos, ao ritmo e à proporção das fachadas.

“A proporção é uma correspondência entre as medidas das partes de um todo e do todo para uma determinada parte seleccionada como módulo. Desta definição resultam os princípios da simetria. Sem a simetria e a proporção não existe ordem no desenho de um templo; ou seja, se não houver uma relação precisa entre as partes, como no caso dos homens belos.”

O tema do livro V é a cidade: o seu desenho, a organização e os elementos constituintes tais como estradas, pontes, fossos drenos e a implantação dos edifícios públicos (fóruns, basílicas, teatros, portos, quebra-mares e estaleiros). Afirma o peso do gosto individual e os hábitos das diferentes civilizações na paisagem arquitectónia.

O livro VI deriva do anterior, continuando a comparação entre a arquitectura romana e a grega. Distingue os edifícios privados, urbanos e rurais, detendo-se no seu desenho e organização espacial.

O livro VII volta o seu olhar para o interior das casas: a importância do ornamento (colunas, vigas, abóbodas), dos revestimentos, das texturas e sobretudo da cor. O modo como se podem conjugar os diferentes revestimentos tendo em conta o carácter e a função do espaço que é projectado.

No livro VIII o tema da tectónica retorna, desta vez para se debruçar sobre a hidrologia e a hidráulica. Influenciado por Arquimedes e pelas suas teorias sobre física, Vitruvius idealizou e construíu mecanismos, alguns movidos pela existência e força da água (como relógios de água), construiu cisternas, aquedutos, estudando formas de encontrar e conduzir as águas.

O livro IX é dedicado à astronomia, ao zodíaco e à Gnomónica. Refere Platão e o seu estudo para “medir” uma parcela de terra (Teorema de Pitágoras) relevando a importância da subdivisão da “medida” no seu todo. Ainda na temática da “medida” refere os assuntos que se relacionam com a Gnómica e com o Zodíaco provenientes do estudo do Sistema Solar, nomeadamente a relação tempo/distância que o Sol demora a percorrer as 12 casas do Zodíaco.

O livro X, é dedicado à engenharia, também ela uma faceta reconhecida em Vitruvius; Refere a importância do engenho das máquinas para a prática construtiva e refere ainda a construção de edificios para a defesa e a balística.

Enquanto tratadista e fomentador da arquitectura de uma época, Vitruvius destaca-se pela atenção, por ter compreendido a necessidade de aliar uma prática construtiva a uma base teórica debruçando-se sobre o estudo da espacialidade, a compreensão dos elementos da linguagem arquitectónica e a noção de que o todo é indissociável das partes. Foi a primeira reflexão documentada sobre a actividade da Arquitectura e a afirmação da figura do Arquitecto na construção de um universo concreto.

Os seus pensamentos não se perdem na poeira dos tempos, ganham antes um sentido de contemporaneidade e todos os temas referidos por Vitruvius são ainda hoje objecto de reflexão na concepção de um edifício. Revelam-se por vezes de uma forma tímida mas consistente. Podemos destacar alguns exemplos: a proporção da Razão de Ouro e “le Modulor” de Corbusier no uso contínuo e sistemático do módulo; as reflexões sobre cidade tais como  as “cidades-jardim” de Le corbusier ,Howard ou o desenho urbano de Haussman para Paris; a métrica das fachadas desde a Idade Média até ao Modernismo.

Vitruvius procurou um método e um sentido para a arquitectura. Uma plataforma de um desejo que respirava da perfeição, do belo, da harmonia, da simetria e da proporção. Foi criticado por alguns teóricos, pela sua rigidez e inflexibilidade da reflexão que espelhou no seu tratado e também pela falta de clareza nos conceitos. Também este tratadista teria formulado críticas relativamente aos que vieram antes dele, referindo sempre a falta de ordem que o levou a escrever “De Architectura”.   

 

Acredito no método, está certo! O tratado de Vitruvius é um elemento e um plataforma organizativa valiosa. Em todo e qualquer trabalho deverá existir um método pelo qual nos regramos . Mas acredito igualmente que o método não deve ser um circuito fechado, deve antes demais ser uma estruturação aberta e flexível que cresce e se reformula coadunando-se com o crescimento e reformulação dos diferentes estádios de um trabalho.

A divergência de opiniões é importante para uma construção conjunta do conhecimento do nosso ofício e não deve constituir um entrave ou jogo de forças. Partilhando o nosso pensamento e perspectiva ao mesmo tempo que nos permitimos a receber a dos outros, deverá ser visto como um ganho.

 

 

O método, seja ele qual for,  é a investigação de uma verdade, seja ela discernida por um velho barrigudo ou por dois mulherõesLaughing

      
Escrito por ArquitectAS em 00:30:09 | Link permanente | Comments (2) |