Vitruvius
Marco Vitruvius Pollio, viveu em Roma no séc I a.c.
Dividiu a sua vida entre a engenharia e a arquitectura, mas foi neste último ofício que firmou a sua arte, deixando-nos um testemunho único e intemporal: o seu tratado constituído por dez Livros, De Architectura, abordam diferentes componentes desta actividade.
A actividade e reflexão de Vitruvius está na base da teoria classicista, onde o saber teórico estava em directa ligação com a mestria técnica, acreditando-se que o poder da experiência empírica e o da teoria não fariam sentido a não ser pela via da sua comunhão.
Com a queda do Império Romano (séc V) , destronam-se igualmente as artes clássicas e os textos de Vitruvio terão sido parcialmente esquecidos ou até mesmo renunciados durante todo este período. O movimento Gótico não comunhava das referências vitruvianas; Vitruvius descolava-se das abóbadas e arcos quebrados inerentes à linguagem conceptual Gótica. Foi um período onde se retirou alguma importância à base teórico- reflexiva inerente ao exercício do estudo dos espaços; os arquitectos eram então artesãos, sem formação académica, que absorviam os ensinamentos dos mais experientes, realistas e religiosos anciões da arquitectura da altura.
De Architectura voltou a ser comemorado, comprovando a sua longevidade e propósito, após o Período Mediaval, por volta do séc. XV, com o Renascimento das artes clássicas.
O tratado foi a base desta renascença e sobreviveu até aos dias de hoje, mantendo-se, em traços gerais, muito actual.
utilitas, venustas e firmitas (utilidade, beleza e solidez)
Inicia este Tratado no livro I versando sobre a formação de um arquitecto. Ela deve conjugar o que eram, na altura, vistas como as ciências e artes “verdadeiras”: a medicina, a música, a astronomia, a história, a geometria e a matemática. O arquitecto deve formar-se num ser completo, aberto ao estudo, ao mundo, abrangendo assim as diversas áreas do conhecimento humano.
"A arquitetura é uma ciência, surgindo de muitas outras, e adornada com muitos e variados ensinamentos: pela ajuda dos quais um julgamento é formado daqueles trabalhos que são o resultado das outras artes."
Este livro ainda trata da análise do trabalho artístico, na perspectiva do seu percurso de trabalho, desde a idealização inicial - a sua dimensão teórica - até à obra propriamente dita.
O livro II faz uma referência histórica da necessidade da construção de um abrigo desde a pré-história e à dimensão tectónica dos edifícios, dos materiais neles utilizados. Neste aspecto desenvolveu uma lista tendo como base a existência dos materiais constituintes da natureza, relacionando-os com conhecimento científico da época a nível das técnicas construtivas.
No livro III e IV, Vitruvius faz referência ao arquitecto grego Hermógenes (séc. II a.c.), reiterando a importância da simetria e da proporção, tanto na arquitectura como no ser humano. Faz a caracterização das Ordens Dórica, Jónica, Coríntia: a sua composição, proporção e ornamentação. O módulo e a métrica inerentes à composição do espaço interior dos templos, ao ritmo e à proporção das fachadas.
“A proporção é uma correspondência entre as medidas das partes de um todo e do todo para uma determinada parte seleccionada como módulo. Desta definição resultam os princípios da simetria. Sem a simetria e a proporção não existe ordem no desenho de um templo; ou seja, se não houver uma relação precisa entre as partes, como no caso dos homens belos.”
O tema do livro V é a cidade: o seu desenho, a organização e os elementos constituintes tais como estradas, pontes, fossos drenos e a implantação dos edifícios públicos (fóruns, basílicas, teatros, portos, quebra-mares e estaleiros). Afirma o peso do gosto individual e os hábitos das diferentes civilizações na paisagem arquitectónia.
O livro VI deriva do anterior, continuando a comparação entre a arquitectura romana e a grega. Distingue os edifícios privados, urbanos e rurais, detendo-se no seu desenho e organização espacial.
O livro VII volta o seu olhar para o interior das casas: a importância do ornamento (colunas, vigas, abóbodas), dos revestimentos, das texturas e sobretudo da cor. O modo como se podem conjugar os diferentes revestimentos tendo em conta o carácter e a função do espaço que é projectado.
No livro VIII o tema da tectónica retorna, desta vez para se debruçar sobre a hidrologia e a hidráulica. Influenciado por Arquimedes e pelas suas teorias sobre física, Vitruvius idealizou e construíu mecanismos, alguns movidos pela existência e força da água (como relógios de água), construiu cisternas, aquedutos, estudando formas de encontrar e conduzir as águas.
O livro IX é dedicado à astronomia, ao zodíaco e à Gnomónica. Refere Platão e o seu estudo para “medir” uma parcela de terra (Teorema de Pitágoras) relevando a importância da subdivisão da “medida” no seu todo. Ainda na temática da “medida” refere os assuntos que se relacionam com a Gnómica e com o Zodíaco provenientes do estudo do Sistema Solar, nomeadamente a relação tempo/distância que o Sol demora a percorrer as 12 casas do Zodíaco.
O livro X, é dedicado à engenharia, também ela uma faceta reconhecida em Vitruvius; Refere a importância do engenho das máquinas para a prática construtiva e refere ainda a construção de edificios para a defesa e a balística.
Enquanto tratadista e fomentador da arquitectura de uma época, Vitruvius destaca-se pela atenção, por ter compreendido a necessidade de aliar uma prática construtiva a uma base teórica debruçando-se sobre o estudo da espacialidade, a compreensão dos elementos da linguagem arquitectónica e a noção de que o todo é indissociável das partes. Foi a primeira reflexão documentada sobre a actividade da Arquitectura e a afirmação da figura do Arquitecto na construção de um universo concreto.
Os seus pensamentos não se perdem na poeira dos tempos, ganham antes um sentido de contemporaneidade e todos os temas referidos por Vitruvius são ainda hoje objecto de reflexão na concepção de um edifício. Revelam-se por vezes de uma forma tímida mas consistente. Podemos destacar alguns exemplos: a proporção da Razão de Ouro e “le Modulor” de Corbusier no uso contínuo e sistemático do módulo; as reflexões sobre cidade tais como as “cidades-jardim” de Le corbusier ,Howard ou o desenho urbano de Haussman para Paris; a métrica das fachadas desde a Idade Média até ao Modernismo.
Vitruvius procurou um método e um sentido para a arquitectura. Uma plataforma de um desejo que respirava da perfeição, do belo, da harmonia, da simetria e da proporção. Foi criticado por alguns teóricos, pela sua rigidez e inflexibilidade da reflexão que espelhou no seu tratado e também pela falta de clareza nos conceitos. Também este tratadista teria formulado críticas relativamente aos que vieram antes dele, referindo sempre a falta de ordem que o levou a escrever “De Architectura”.
Acredito no método, está certo! O tratado de Vitruvius é um elemento e um plataforma organizativa valiosa. Em todo e qualquer trabalho deverá existir um método pelo qual nos regramos . Mas acredito igualmente que o método não deve ser um circuito fechado, deve antes demais ser uma estruturação aberta e flexível que cresce e se reformula coadunando-se com o crescimento e reformulação dos diferentes estádios de um trabalho.
A divergência de opiniões é importante para uma construção conjunta do conhecimento do nosso ofício e não deve constituir um entrave ou jogo de forças. Partilhando o nosso pensamento e perspectiva ao mesmo tempo que nos permitimos a receber a dos outros, deverá ser visto como um ganho.
O método, seja ele qual for, é a investigação de uma verdade, seja ela discernida por um velho barrigudo ou por dois mulherões