Domingo, Junho 17, 2007

Mário Laginha "Espaço"

 

Hoje comprei finalmente o novo disco do Mário Laginha: "Espaço".

O mote da construção deste disco é um assunto bastante actual e que pretende  relacionar a  "Arquitectura e Música", tema em destaque nesta Trienal de Arquitectura. A semana passada li a entrevista do Laginha (de quem já sou fã há muito tempo) no suplemento "Linha" do Expresso e ainda aguçou mais a curiosidade que já tinha sobre este trabalho. Na realidade, acho que queria ter  algum feedback antes mesmo de o ouvir. (Podem ouvir a 2ªfaixa "Tanto Espaço" na barra ao lado)

Como estudante que fui, de arquitectura e de música, a relação que poderá ser estabelecida entre estas duas formas de comunicação com um "público" sempre foi  muito interessante . São de facto duas formas de comunicar com o mundo que num caso é mais a curto prazo que noutro mas ainda assim,  dois grandes vínculos de comunicação e reveladores de uma cultura muito própria. A música, transporta-nos para um universo mais imediato, assente num momento, no instante em que a ouvimos. A arquitectura, perece num determinado lugar e toma forma e sentido ao longo do tempo e com ele vai-se transformando. De todas as formas, estas duas artes são construídas para o Homem, provocam sensações várias e  " criam ambientes", citando o Prof. Orlando Azevedo. 

A arquitectura e a música , no seu processo de composição, estão sujeitas quer a uma ideia conceptual quer a  uma série de ferramentas e elementos compositivos que coordenados entre si tomam uma estrutura que revela um pensamento actual e as intenções pessoais do seu autor. Esses elementos são muitas vezes, na sua essência,  identicos, tal como constatou o Mário Laginha na referida entrevista:  "(....) muitos dos termos utilizados pelos arquitectos são os mesmos da música. (...) Os arquitectos falam muito em silêncio e em ruído, em linhas contínuas e descontínuas, em planos, em espaço, na opressão do espaço, as cadências, as estruturas reguares." Eu ainda acrescentaria: Harmonia- Volumetria, métrica- ritmo, silêncio-vazio, Dissonância- Assimetria. Além disto e para além disto, a ideia conceptual que qualquer projecto assume tem sobretudo que ter em consideração o local onde vai nascer. Qualquer disco, qualquer música também tem na sua génese, uma intenção, uma ideia .

Para além desta comparação um tanto subjectiva e conceptual, também existe, quanto a mim, uma inerente composição formal arquitectónica tendo em conta os métodos compositivos e os instrumentos de trabalho que foi dispondo ao longo dos tempos. Assim a música também o foi.  As influências culturais e até o próprio desenvolvimento dos instrumentos musicais e das formas de orquestração foram determinantes para a evolução da música até aos dias de  hoje.

Quero com isto dizer, que qualquer tipo de forma de expressão artística é um reflexo de uma mentalidade, de uma cultura, de um tempo, que tomam forma concreta e física num disco como este ou num edíficio de arquitectura actual.

Quando visitamos a "Casa de Mateus" em Vila Real não sentimos o mesmo do que quando entramos no museu de Serralves. O mesmo acontece quando ouvimos uma fuga de Bach ou um disco do Laginha. Mas isso é uma experiência que gostaria de exemplificar num post muito,muito brevemente. Até já.... 

Escrito por Bárbara em 22:40:01 | Link permanente | Comments (8) |

Terça-feira, Junho 05, 2007

"As Operações SAAL"

Ontem fomos assistir ao S-Jorge à ante-estreia do documentário “As operações SAAL” do realizador João Dias. Este filme , produzido pela “Extra Muros” e “Bazar do Vídeo” é o resultado de quase dois anos de investigação, recolha de depoimentos e opiniões de pessoas e arquitectos que estiveram directamente envolvidos neste grande projecto de habitação social que se deu no período pós 25 de Abril: o SAAL (Serviço de Apoio Ambulatório Local). Estará disponível (ainda não se sabe quando) em DVD  e exibido  já no próximo dia 31 de Julho no Festival "Andanças".

É sem dúvida um documentário polémico que ataca o exercício da Arquitectura em várias frentes. Um dos grandes desafios de sempre é o realojamento da população aquando da demolição de alguns bairros e consequentemente todos os costumes, modos de vida e carências a ter em conta na realização de um projecto de habitação social. A ideia é aliciante: os arquitectos ouvem as associações de moradores e tem lugar uma requalificação desse mesmo espaço com um novo projecto de habitação social . Após a revolução, as carências de habitação são pensadas numa lógica de auto-reconstrução e não na entrega de chaves em bairros sociais. O que este documentário retrata é entre outras coisas, a não concretização desses  projectos. O problema da auto-construção (ainda cerca de 30 % da construção actual do país) é o não cumprimento do projecto de arquitectura e inevitavelmente o aparecimento de anexos pós-anexos-pós-anexos à medida que a família aumenta, alterações de pavimentos ou materiais,  artes decorativas tipicamente “tugas” e pequenos caprichos “estéticos” ou funcionais que aleatoriamente os moradores tomam rédeas na sua construção, a fim de obterem a sua casa de sonho.

É interessante ver a reacção dos moradores e reflectir sobre esta problemática. Afinal, “o modo de construir para ricos é diferente de construir para pobres?” – Afirmou o Arqº Nuno Portas no debate que se seguiu à projecção do filme. A arquitectura não é suposto ser para todos? O que falhou no SAAL?

 

Escrito por Bárbara em 15:36:31 | Link permanente | Comments (0) |

Sexta-feira, Junho 01, 2007

Reciclar

Vivemos em tempos de mudança...lenta!

Facto é que as mentalidades começam a mudar e a adequar-se aos propósitos da cuidado com o Planeta, ecologia e sustentabilidade. Estes deixaram de ser termos de “PalermasVerdesMetidosABonzinhosSalvadoresDoMundo ” como os mais cépticos costumavam relinchar e começam hoje em dia a ser praticados quotidianamente pelas populações do mundo. Seja pela poupança de água, de energia eléctrica e redução no uso de combustíveis fósseis, seja pela reciclagem.

Quero desta feita falar sobre reciclagem, não a que se faz nas ilhas de ecopontos mas à aplicável à arquitectura. 

Os elementos pré-fabricados são reconhecidos como mais eficientes, tanto no que consomem energeticamente na sua concepção como na montagem em obra, em termos práticos e igualmente energéticos...Isto não é novidade nenhuma!

Mas o que me diriam se recebessem um apartamento destes?

A acção de reciclar é assim levada um pouco mais adiante: Fáceis de transportar, quer por terra ou mar, se algum dia sentirem a necessidade de mudar de casa, é fácil, levem-na convosco J ; funcionam como um lego: montam-se, empilham-se, tudo feito  “in loco”,  à medida dos desejos de ocupação espacial do cliente; cortam-se, recortam-se, isolam-se: é infindável o dinamismo que estes espaços podem ter. Quando já não forem necessários? Reciclam-se! Podem até dar forma a um carro movido a energia solar ou a uma lata de coca-cola...

Vejam ainda: “Urban Space Management´s Container City” ; “New Islington” ; “Shipping Containers” em

Lafayette Street
.

 

 

Agora digam-me lá que estes contentores não ficavam melhor, no porto de Lisboa, do que aqueles que lá existem enquanto estamos para aqui a ler os disparates de uma “PalermaVerdeBozinhaSalvadoraDoMundo”!

Escrito por VANDA em 16:44:43 | Link permanente | Comments (1) |

Quarta-feira, Maio 23, 2007

LIVRARIA ETERNO RETORNO- BRAÇO DE PRATA

Hoje venho falar e divulgar um promissor projecto que será levado a cabo pelo Prof. Nuno Nabais, que para muitos será um novo estímulo na cidade e um ponto de encontro  das várias Artes. Todos nós vimos a série "Fame" quando éramos míudos e principalmente quem priva de perto, estuda ou apenas se interessa por qualquer forma expressão artística, deverá ficar orgulhoso deste projecto. Ainda que para já seja temporário (durará apenas 4/5 anos), terá tempo para poder consolidar o conceito que vai abraçar e quem sabe um dia este espaço seja reconhecido pela nossa autarquia.

Nuno Nabais é um conceituado professor de Filosofia e é sobretudo uma pessoa extremamente interessada nas diversas formas de expressão artística. Fez parte dos projectos da livraria "Eterno retorno" e "ler devagar" (hoje situada na R. Rosa , nº145) que muitos já conhecem. Este projecto vem no seguimento destas iniciativas...

Estamos a falar da antiga "Fábrica de Armas do Braço de Prata" que actualmente tem o piso térreo desabitado. Estive lá ontem e é um edifício dos séc XIX de uma certa nobreza e com pormenores lindissimos como o pavimento em mosaico, as janelas e as casas de banho ainda originais. A ideia é reaproveitar o espaço, que tem cerca de 6 salões (aproxidamente 40 m2 cada e outras pequenas salas que formam um total de aproximadamente 300 m2), para uma espécie de "Casa de Cultura" que pretende dar lugar à representação de todas as Artes num único espaço: Música, Teatro, Dança, Pintura, Arquitectura, Literatura...

Estão já previstos destinos para quase todos os compartimentos: Um restaurante fora- de- horas (para "render" ), um bar de jazz ao vivo, uma sala para  Teatro (ensaios e espectáculos),  a antiga livraria "Eterno Retorno" e "Ler devagar"(situada antigamente no Bairro Alto), um pequeno cine-estúdio, uma loja de discos, uma loja de roupa em segunda-mão, uma galeria de arte,  espaço de exposições temporárias e muito provavelmente no enorme espaço exterior ....Um drive-in! Esta ideia ainda está a ser discutida...

Quem quiser participar activamente neste projecto, poderá ser voluntário nos dias 8,9, e 10 de junho,  3 dias intensivos de limpeza e arrumações (após as obras de remodelação) e poder ir à inauguração dia 14 de junho deste mesmo espaço.

O objectivo em causa vale a pena. Eu (em príncipio) lá estarei!

 

 

Escrito por Bárbara em 12:55:03 | Link permanente | Comments (2) |

Segunda-feira, Maio 07, 2007

Pig City

Ainda sobre o tema da densidade e do crescimento urbano, os MVRDV e entidades estatais na Holanda, promoveram um estudo algo desconcertante.                                                                                                  

 A Holanda é o país que mais cria e exporta suínos, só para que tenham uma ideia, a população humana ronda os 15.5 milhões de habitantes, que convivem com cerca da 15.2 milhões de amigos suínos. Mas como assegurar a longevidade deste negócio que alimenta a economia dos Países Baixos? Para isso temos de levar em conta não só a existência dos animais no território mas também a qualidade da sua alimentação, que em consequência resultará na boa saúde destes animais (que por muito que não consiga concordar) trazem tanto deleite às gentes.

A questão é: como nos existirmos todos, pessoas e porquinhos e o que mais se quiser juntar, de uma forma sustentável?

“Pig City” ensaia sobre agricultura ecológica e a problemática dela se estender sobre um imenso território que assegure a alimentação de tão larga população de porcos, ao mesmo tempo que terá de co-existir com uma crescente densidade populacional (por parte de pessoas desta vez)...

A cidade dos porcos prevê torres de criação suína que se elevam cerca de 40 andares de “quintas” de agricultura biológica, repletos de luz natural, onde os animais exploram quase livremente o seu habitat criado. O piso térreo é ocupado por matadouros: por questões económicas  e higiénicas, relativas ao transporte e MORTE dos animais J. Nos pisos cimeiros encontram-se as infra-estuturas que alimentam não só os habitantes do edifício como o próprio: os tanques de água, puxada por enormes bombas e purificada nos reservatórios; a par da agricultura biológica os animais são igualmente alimentados por peixes criados em enormes tanques piscicultura, fornecendo-lhes proteínas; e ainda a alimentação do edifício a biogás, obtido exactamente pelos animais. Assim um edifício auto-suficiente, bem ao jeito dos MVRDV, que nos premeia com a união de elementos ecológicos com a industrialização da criação de animais: os responsáveis pelo negócio ficam contentes, a carne dos animais é de confiança e o território tem menores índices de ocupação e impermeabilização (é bom para o planeta).

Não concordo com esta proposta por razões pessoais, no entanto reconheço a intenção, praticabilidade e a inteligência no uso do território, no uso da arquitectura ecológica e de edifícios auto-suficientes e na atenção à qualidade dos produtos consumidos por alguma parte da população deste nosso mundo: já que têm de comer carne ao menos que seja de boa qualidade.

Deixo-vos só com um pensamento: se a população mundial optasse por uma alimentação vegetariana e biológica, os nossos solos não perderiam a sua fertilidade, as chuvas ácidas diminuiriam ( já que não se usariam transgénicos ou pesticidas químicos), o planeta no seu geral seria menos instável...e a fome na sua dimensão mundial diminuiria ou desapareceria por completo.

Se disse algo de errado manifestem-se, se não, manifestem-se de qualquer modo!

Ps: Bárbara, já sei o que estás a formular pensamentos muito pouco católicos dirigidos aos “Verdes”.       

Escrito por VANDA em 17:56:51 | Link permanente | Comments (4) |